domingo, setembro 14, 2003

Sugestao de um livro

Acabei de ler o Equador de Miguel Sousa Tavares e gostei muito. Retrata a vida em Portugal e nas Colonias (S. Tome e Principe) no inicio de Seculo. Senti o cheiro de Africa depois de uma chuva tropical, revoltei-me com a escravatura nas rocas e com a hipocrisia da vida mundana da burguesia ... Lembram-se dos Maias...

Enfim o romance e´ um pouco artificial e o fim um pouco precipitado, mas vibrei com o humanismo e integridade da personagem principal - o governador, Luis Bernardo Valenca e com todo o drama leal, construido com o seu amigo e oponente (mas nao rival), o consul ingles:

" - O que achaste dele?
- Que vai ser desagradavel te-lo como adversario.
- E vai ser fatal te-lo como adversario?
- Segundo percebi as instrucoes que lhe deram, sim. Trata-se, aparentemente de um cavalheiro numa missao insustentavel, ao servico de uma causa que nao tem defesa. Nem sei mesmo o que o tera trazido aqui e feito aceitar este servico.
- Talvez alguma coisa de semelhante que nos trouxe a nos - respondeu ela, impiedosamente, e David calou-se, nao encontrando resposta para lhe dar. Consciente da dureza do que acabara de dizer, Ann encostou-se a ele e foi assim, sem mais palavras, que adormeceram para a sua primeira noite no Equador. "





Hoje é o primeiro dia
Leio o post "há magia por dentro do que vive, o próprio desencontro reafirma a eternidade que sonho " em litle black spot e como aquelas palavras fazem eco em mim e recordo a música de Sérgio Godinho:

A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vem cansaços e o corpo frequeja
molha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Check in...check out

Check in
Check out

Check in
Check out

Ficas sereno à espera que eu faça check in na tua porta de embarque. Pode demorar um mês ou anos! Quando o faço, ouço um "olá miúda" e recebo um abraço forte.

Quando faço o check out ouço "Foi muito bom ter-te assim de novo" e recebo um abraço forte.

Imaginas que eu tenho uma outra rota muito bem definida para percorrer.
Mas não tenho. Depois do check out nunca sei para onde ir.
O meu corpo fica insuportavelmente só e frio na fila de uma bilheteira, num enorme aeroporto repleto de gente....

sábado, setembro 13, 2003

O Supli­cio de Tantalo

Em conversa com um amigo querido, contou-me esta historia da mitologia grega.
Tantalo, um dos filhos de Zeus, tera´ abusado da amizade e da confianca com que era distinguido pelos deuses, pelo que foi severamente castigado.
Tantalo passou a estar sempre mergulhado em Agua ate´ ao pescoco e sob uma arvore carregada de saborosos frutos. Sofria incessantemente de fome e sede, mas quando tentava mergulhar e beber, a agua fugia dele; quando levantava os bracos para apanhar os frutos, os ramos da arvore moviam-se para fora de seu alcance.

Afirmou ele, que eu sofria desse si­ndrome. Mas embora aprecie o teu alerta, recordo-te que ja Dante nos fez primeiro passar pela porta do inferno para finalmente nos mostrar a do parai­so. E cada um de nos tem o seu tempo, para finalmente brotar um basta. Nao penses que sou ingrata e peco-te que te mantenhas atento e pacientemente perto, pois os teus acertivos alertas, tem lugar na minha consciencia ou insconciencia.

quinta-feira, setembro 11, 2003

Os Passos em Volta de Fernando Pessoa

Estava em casa e lembrei-me que hoje se iniciava este ciclo de conferências na casa Fernando Pessoa. Hesitei se iria ou se ficaria a alimentar este blog. Mas como tenho que resistir ao comodismo e diz-me o passado que depois sinto-me sempre bem, fui.
Estacionei o carro e dirigi-me à R. Coelho da Rocha. Entrei por uma porta aberta que me levou a um espaço de degustação muito agradável a meia luz. Como não encontrei nenhuma indicação para o ciclo de conferências, saí e tentei na porta ao lado, que se encontrava fechada e com a seguinte indicação (ou mais ao menos assim):
Por motivos inesperados, o ciclo de conferências com o Dr. Miguel Veiga fica adiado sem data marcada.

São assim os passos (perdidos) em Volta de Fernando Pessoa

Monstro marinho ou má revelação

O despertador toca e ela acorda. Deixa-se ficar mas a sua mente viaja. As palavras bonitas ouvidas há já algum tempo, iludem-na. Tenta manter-se lúcida, recordando-se do passado mais recente, mas a sua mente traia e obriga-a a regressar aos efémeros e bons momentos. Levanta-se, vai à casa de banho e olha-se no espelho.
Será ele um monstro marinho ou uma má revelação?

quarta-feira, setembro 10, 2003

Como me tornei estúpido by martin page

" Tenho a maldição da inteligência; sou pobre, celibatário, deprimido. Há meses que penso na minha doença de pensar demasiado, e estabeleci com certeza a correlação entre a minha desventura e a incontinência da minha razão.
Pensar, procurar compreender, nunca me deram nada, sempre jogaram contra mim. pensar não é uma operação natural, é uma coisa que fere, como se revelasse cacos de garrafas e arame farpado misturados no ar.

Não consigo deter o meu cérebro, abrandar-lhe a cadência. Sinto-me como uma locomotiva, uma velha locomotiva disparada sobre os carris e que nunca poderá parar, visto que o combustível que lhe dá a sua vertiginosa potência, o seu carvão, é o Mundo.

Procurar compreender é um suicídio social, ou seja, não se saboreia a vida sem que nos sintamos, contra vontade, ao mesmo tempo aves de rapina e abutres esquartejando os objectos do mundo.
O que pocuramos compreender, normalmente matamo-lo, já que, tal como o aprendiz de médico, não há verdadeiro conhecimento sem dissecação:
descobrem-se as veias e a circulação do sangue, a organização do esqueleto, os nervos, o funcionamento íntimo do corpo.
E numa noite de pavor, damos por nós numa cripta húmida e sombria, de escalpelo na mão, encharcado de sangue, sofrendo naúseas constantes, com um cadáver frio e informe sobre uma mesa de metal.

Passei muito tempo nas morgues;actualmente sinto aproximar-se o perigo do cinismo, do azedume e da tristeza infinita; tornamo-os rapidamente instrumentos da desgraça.
Não é possível viver sendo-se demasiado consciente, demasiado inteligente. De resto, veja-se a natureza: tudo o que vive e envelhece feliz não tem muita inteligência. As tartarugas vivem séculos, a água é imortal e Milton Friedman continua vivo."

O nome "Kiducho" certo...

Não é fácil escolher um nick para a pila do nosso Ente querido. E se este assunto vos parece de pouca importância, pensem quantas vezes o vão soletrar e gerar sorrisos no Outro.
Confesso que numa daquelas conversas finais, o facto de a sua pila não ter sido devidamente baptizada surgiu confesso num sofrido desabafo.

O caso pode ser bicudo. Um simples nick poderá gerar uma flacidez indesejável ou um priapismo incurável.

Para cada uma, a sua sentença. Olhemos para algumas tentativas:

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Pequena e flácida____Lilliput

Fina e longa____TopModel

Bem cheirosa____Amêndoa-doce

Grande e gorda____Americana

A que se baba continuamente____Alambique

Inclinada para a Esquerda____Blocão de esquerda

Inclinada para a Direita____RTP

Gorda e curta____A Guerreira
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Tentativas falhadas?!

Tive um nick favorito (que não consta da lista) durante muito tempo, e agora, surgiu a globalização. E a globalização só me traz problemas...


Amantes de Verão

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos

desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.

in A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS (1996), Maria do Rosário Pedreira

Para ti, o poema que nunca enviei

Se eu pudesse mudar

Seria menos ansiosa, viveria mais o momento, não seria tão pessimista e desconfiada.
Mas será que seria melhor? Será que atingiria a essência da vida?
Mas se de facto fosse melhor corrigir o meu rumo, porque não tento, porque não investigo?
Estarei eu refém de mim própria e da educação que me transimitiram?