sábado, outubro 04, 2003

E se Eu...

amanhã acordasse com um daqueles "sorriso palerma" de apaixonada?

era sinal que ainda estava a dormir......

Homens sós ( dedicado ao Encalhado)

homens sós, tão sensíveis são.

e nós mulheres, gostamos de homens sós.

quando eles passam a dizer nós, deixam de ser homens sós.

Definições


Caracteres
Publicam-se os livros com os caracteres cada vez mais pequenos. Estou a imaginar o fim da literatura: pouco a pouco, sem que ninguém se dê conta disso, os caracteres diminuirão até se tornarem totalmente invisíveis.



Riso (europeu)
Para Rabelais, a alegria e o cómico não eram ainda senão um. No século XVIII, o humor de Sterne e de Diderot é uma recordação terna e nostálgica da alegria rabelaisiana. No século XIX, Gogol é um humorista melancólico:
"Se olharmos atentamente e demoradamente para uma história divertida ela torna-se triste", diz ele.
A Europa olhou para a história divertida da sua própria existência durante um tempo tão longo que, no século XX, a epopeia alegre de Rabelais se transformou em comédia desesperada de Ionesco que diz:
"há pouca coisa que separa o horrível do cómico".
A história europeia do riso está definitivamente encerrada.



Ritmo
Tenho horror a ouvir o bater do coração que me lembra constantemente que o tempo da minha vida está contado. É por isso que sempre que vi nas linhas de divisão, que marcam as partituras, algo de macabro.
Mas os maiores mestres do ritmo souberam fazer calar esta regularidade monótona e previsível e transformar a sua música num pequeno cercado de " tempo fora do tempo".
..........o génio do ritmo manifesta-se pela regularidade ruidosamente sublinhada. Erro. O atordoante primitivismo rítmico do rock: o bater do coração é amplificado para que o homem não esqueça, nem por um segundo, a sua caminhada para a morte.


Definições extraídas de " A arte do Romance" Milan Kundera

sexta-feira, outubro 03, 2003

Litost

Leio que a Origem do Amor está a 10 páginas de acabar a Imortalidade. e penso, quais serão os livros que lhe faltam ler.

Kundera lembra-me os tempos da universidade, quando o descobri e li todos os livros dele até aí editados.

A introdução do Livro do riso e esquecimento,diz-nos:

"Em Praga, havia o erotismo- era o escape da liberdade. Mas desta vez Praga é só ausência e litost. Kundera faz parte de uma geração que fez a revolução e viu o resultado dessa revolução fugir-lhe nos dedos. Os tanques soviéticos chegaram como uma imensa gargalhada de troça. Kundera foi um desses ingénuos cheios de seriedade. E o tempo riu-se......"

Eu sonhava com a revolução, mas já a sentia como alguém que goza porque sabe que vai acabar.
Fui a Praga, ver os tanques, ler os horóscopos dos jornais, olhar para os homens de limpeza de janelas, visitar a clínica onde se faziam tantos meninos do mesmo pai, bancos de jardim com Binoches a ler Ana Karenina.....
Aprendi palavras novas, e ainda hoje de vez enquando aparece a minha Litost (<< estado tormentoso que nasce do sentimento da nossa própria miséria subitamente descoberta>>).

No Livro da Imortalidade percebi na pele as saudades que tinha de Praga.

Kundera faz anos no mesmo dia que eu. e eu gostava de que ele me desse uma prenda. Um novo livro em que eu saboreasse essas saudades.

Escolha do restaurante para jantar

- No 1º. Encontro
Tenho a certeza quee já pensou naquele restaurante especial para a(o) levar. Mas não se esqueça capriche no vinho. Um bom vinho faz milagres.

- No 1º. Encontro se "blind-date"
Bem nesse caso, o melhor é ir ao Bairro Alto. Assim, se a sua companhia afinal não se revelar tão agradável, pode sempre ir a um bar onde encontre caras suas conhecidas.

- Quando anda na fase "nim"
Certifique-se primeiro que na casa de banho há  rede móvel, para se lhe apetecer, poder enviar um SMS a meio.

- Quando já não fazem amor há muito tempo
Experimente um restaurante indiano, há quem diga que a comida indiana é afrodisiaca.

- Quando tem filhos
Capriche, escolha aquele restaurante que abriu há já seis meses e que toda a gente falava, mas que você ainda não foi. Mas por favor, deixe as criancinhas em casa. Nós, os sem filhos, agradeçemos.

- Se vai em grupo
Não sugira, deixe para outro tratar. Vai sempre aparecer alguém a dizer que não gosta disto ou daquilo.

- Se lhe apetece blogar
Bem aí, o melhor é ficar em casa e encomendar uma pizza por telefone.

- Se vão só homens
Não preciso de sugerir, não é? Vocês vão sempre ao mesmo restaurante.

- Se vão só meninas
Que tal uma cervejaria com um bom marisco e uma cervejas. Aquele ruído todo permite-nos falar á vontade.

- Se vai sozinho
Que tal um restaurante de comida a peso, para poder ler enquanto come à vontade.

- Se vai com um amigo ou amiga
Tenho a certeza que se lembrará de algum. Em último caso, recorra ás paginas amarelas on-line ou aos novos serviços dos operados móveis.


Quanto a mim, bem hoje encomendei uma pizza.



quinta-feira, outubro 02, 2003

Passado

O nosso blogue passou a ter um passado. Ali estão guardados os nossos pensamentos, impressões, sensações, vivências. Há coisas que é bom que permaneçam na memória. E como a memória nos pode atraiçoar...
Ali estão guardadas, cravadas, reais. Irei buscá-las quando me apetecer rir, sorrir, sonhar, pensar ou simplesmente reler o passado como ele é, passado.
No início escrevi que prometia ser bom, hoje reafirmo que é muito bom.
Obrigada Louise por estares, mais uma vez, presente nesta viagem.
Last but not least, foi bom sentir-me acompanhada de outro(a)s bloggers, que muitos deles, ficaram ali (e não só ali) na caixinha dos preferidos.

Vontade

Apetecia-me passear de mãos dadas e mostrar a minha cara de menina.

quarta-feira, outubro 01, 2003

Sabem o que é Vaginismo ?

é casar com um grande amigo...

D. Fátima,

Agradeço mais uma vez ter vindo trabalhar. A roupa para passar a ferro está como sempre no quarto da roupa, deixei de tudo um pouco... Repare que arranjei o vapor no ferro.

Gostaria que não me desligasse o descodificador da TV Cabo, as colunas e o DVD como é usual. Gosto de rotinas, dão-me conforto, mas às vezes preciso de mudar.

Esteja à vontade para ligar o seu rádio, e ouvir os Anjos, sou adepta da terapia pela arte.

Se tiver tempo faz-me uma sopa ? não me pergunto como, faça um milagre, não tive tempo para ir às compras.

beijinhos
Louise

( tenho a certeza que vou ter uma resposta à altura e os lençóis fresquinhos para a nana de amanhã)

segunda-feira, setembro 29, 2003

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos

Sublimação

Entro dentro da nave branca.
Descalça, sozinha repouso, deitada num colchão branco ao centro.
Oiço ao fundo o oscilar da ondas.
Progressivamente, a nave vai ganhando cor.
Tudo há minha volta fica verde, um verde transparente e
Oiço ao fundo o oscilar da ondas.
Repouso, a calma vai tomando conta de mim,
Fico assim, deitada e os minutos parecem horas.

Experimenta Design na Cordoraia

Crise de Identidade

Nos mails que vão chegando, dirigidos à Thelma, a pergunta e quase afirmação que Thelma e Louise são a mesma pessoa , são uma constante.

Aproveito então, para elucidar que a Louise existe, teve o sempre próprio cordão umbilical e que na casa dos trinta não queria mais uma crise existêncial/Identidade.

É no entanto engraçado como duas escritas se fundem sem qualquer destrinça.

beijinhos e um "obrigado" pelos vossos comentários e emails.