domingo, outubro 19, 2003

O Pajem
Sozinho de brancura, eu vago - Asa
De rendas que entre cardos só flutua...
- Triste de mim, que vim de Alma prá rua,
E nunca a poderei deixar em casa ...

Mário de Sá-Carneiro

sexta-feira, outubro 17, 2003

Missão (sorrisos)


Quando me fazem estas perguntas eu nunca sei responder:

Qual o filme da sua vida ?

Qual o livro da sua vida?

Quais as mais belas palavras que chegaram até si?


resta-me o olhar perdido e aparvalhado para quem mas faz e Ene coisas ficam por dizer.


..............

Tu fazes-me levitar
E podia pedir-te para me fazeres voar

Ainda hoje me disseste para eu te dar as coordenadas
_______

Juntos sem palavras, sem coordenadas, vamos levitar
e se voarmos
olha,
foi sem querer
aconteceu

Epílogo

Se não mentir a si próprio, descobrirá que é uma pessoa com limites e deixará de querer ir a todas, como fazem os fóbicos.
Também não será dono da verdade nem tão importante como são os paranóicos.
Não será o mais perfeito, o que fica para os obsessivos, nem tão brilhante ou poderoso como os histriónicos e psicopatas.
Não será uma pessoa muito especial, como os esquizofrénicos, nem um génio, como os maníaco depressivos.

Será apenas uma pessoa comum que aceita desafios e os paradoxos da vida, faz o possível para, em cada momento, dar o que pode e actuar em conjunto com os outros. No entanto, tem de assumir a responsabilidade completa pelas suas acções. Afinal todos fomos expulsos do Paraíso e condenados à solidariedade. Fizémos das fraquezas forças e, uns com os outros, construímos coisas admiráveis.

Convenhamos entretanto que tudo isto é muito complicado, pouco gratificante e difícil de fazer.

Fácil, fácil, é mesmo tornar-se doente mental.

quinta-feira, outubro 16, 2003

Como tornar-se doente mental?
Personalidade Paranóide- Variante 4 Erotomania

Têm à sua disposição, a variante Erotomania para se tornarem paranóicos, vamos a isso ?

Erotomania. O que é isso ?

- Um amor. Não é um amor sentido (não confundir paixão e, muito menos, paixão platónica). É um amor percebido, pois já vimos que a si não lhe interessam os sentimentos nem as dúvidas, mas sim as certezas ( ou antes as certezas que são apenas suas e de mais ninguém).

É além disso um amor que domina a sua vida e que a torna a pessoa mais importante do mundo por via do personagem que a ama.

Para o conseguir tem de fazer alguma coisa.
Tem, antes de mais, de se treinar na carreira paranóide, considerando que a sua vitória final é ser amada por um poderoso personagem.

Ele tem que ser uma pessoal muito especial, de preferência um político que seja presidente. Mas pode ser também um cantor pop ou qualquer personagem que faça vida de aparecer em público.
Comece por escrever-lhe; é possível que receba uma carta de agradecimento ( que talvez nunca saiba, mas pode ser escrita pela secretária).

Depois encontre-se com ele ao longe e por várias vezes. Com a necessidade de criar boa impressão no público, ele não deixará de lhe sorrir, e, talvez de lhe acenar. É a prova do grande amor que nutre por si.

.... Estude-lhe a vida, leia as entrelinhas dos seus discursos ou canções. Estão ali as provas do amor para quem quiser ver ( claro que ninguém quer, porque estão todos contra si).

Se algum dia tentar visitá-lo, tem os seguranças a impedi-lo. Ora aí está a grande prova de que, por conveniência social ou política, os inimigos do vosso amor estão por todos os lados. Ele não é livre!
Alguns até se riem de si, coitados. Mas isso mais força lhe dá para prosseguir na sua vida de dedicação.

Faça diários, rendas, defenda-o, dedique-se à sua causa.

Se ele um dia pudesse, ele agradecer-lhe -ia. O problema é que não pode, e você também não pode chegar porque não a deixam.

Paciência, o grande amor que tem já lhe chega.



Como tornar-se doente mental- J. L. Pio Abreu, coordenação de Óscar Gonçalves

quarta-feira, outubro 15, 2003

O Planador

Alguém me diz que é um Planador sem motor

esquece porém, que os ventos estão a seu favor.

terça-feira, outubro 14, 2003

Família

Semana passada, estive a ouvir o António Barreto falar sobre Envelhecimento em Portugal. E Envelhecimento, leva ao tema Família. E numa nota Ele diz que a noção de família integra a família unipessoal, i.é., uma pessoa que viva sozinha.

Com alguma ironia, "descobri" que sou uma família.

É verdade que o burburinho que se vive nesta minha casa, é semelhante ao burburinho de uma grande/média família.

Ouvem-se gritos, as portas e as portadas da janela ondulam na agitação, quando o tom se eleva.
Os objectos ganham vida própria e assustados com a luta, refugiam-se nos cantos escuros.

Lembro-me uma vez de ver o célebre espremedor do Philip Starck, finalmente se mexer e esconder-se atrás da coluna de som.
Eles lá se vão defendendo........mas eu, como dona da casa, tenho que enfrentar a luta,
e sofro,
sofro no sorriso irónico do meu Id
e na voz severa do meu super-ego

Dogville
Ontem fui ver o Dogville. Para além da interpretação fantástica da Nicole Kidman, da fusão peculiar entre teatro e cinema e de me deliciar com a música de David Bowie Young Americans, fiquei a pensar no momento crucial do filme, em que Grace após ter sofrido toda a violência se interroga: "E eu no lugar deles teria feito o mesmo?", perdida entre o perdão e o castigo. Aí, o momento de revolta emerge, arreda os olhos e acaba por ela própria vender a alma e perdê-la.

Não pensem que me estou a vitimizar nem tão pouco a incentivar à violência, tento ter como princípio que as acções ficam para quem as pratica e tenho consciência que há um traço ténue entre verdade e mentira, eu e o outro, liberdade e responsabilidade.

Mas tenho dúvidas se a mesericórdia não é por vezes uma forma de vitimização e uma inibição para o desenvolvimento responsável do ser.