domingo, dezembro 14, 2003



Achas que depois deste parto sem dor, mas assustador à vista, vou renascer com tónica…é que sem o acorde tonal todos ficaremos um pouco perdidos.

Não nascerei nota de adorno.
vou nascer de mau humor, a rosnar, a estrangular as palavras doentes,
mas num repente, abandonarei esta morbidez, este estado de delírio, de confusão mental
e com quem se vira para o outro lado da cama.
viro o rosto e vais ver um rosto sereno, com olhos de mergulho
que só quererás afagar.

e depois canta tu ao desafio comigo
eu não vou deixar o esforço fazer crescer o teu pescoço.
vou-te acompanhar num coro de vozes dissonantes, que incomodará os vizinhos mas o ar, olha cheio de compassos de serenidade. olha !

sábado, dezembro 13, 2003

Kilimanjaro



Nessa noite enquanto ouvia acordado as hienas a disputarem os restos da carne e olhando a luz da fogueira pela porta da tenda pus-me a pensar em Mary que agora dormia profundamente feliz com a bela caçada e o tiro certeiro no gnu e a interrogar-me por onde andaria o leão grande e que estaria a fazer neste momento no escuro. (...) Depois, por momentos, deixaram de se ouvir quaisquer ruídos na noite.

Verdade ao Amanhecer - Ernest Hemingway

É com estes cheiros e sons que me escapo à realidade diária. Apetece-me viajar, apetece-me lá ir no início do próximo ano.


terça-feira, dezembro 09, 2003

o meu tigre é mais novo e também já me tentou atacar ( isto cá entre nós)
A origem do amor voltou.

Confesso que vivi

(estou no banho a lavar o cabelo. levo um tempo enorme. fico à espera que estranhes. finalmente entras, arregaças as mangas e passas-me o champô na cabeça.
Enrolas-me no toalhão, e então aí começas a falar. Ao som do secador, com as tuas mãos nos meus cabelos contas-me a história de Omar Vignole)

Vignole fora agrónomo numa província argentina e trouxera de lá uma vaca com a qual mantinha amizade entranhada. Passeava por Buenos Aires inteira com a vaca presa a uma corda . publicou então alguns livros que tinham sempre títulos alusivos: Lo que piensa la vaca, Mi Vaca y Yo,…..
Quando se reuniu pela primeira vez naquela cidade o congresso do Pen Club mundial, os escritores, tremiam ante a ideia de o ver chegar ao congresso com a vaca.


(agora sacodes a minha cabeça, e enquanto me vestes a camisola-pijama, ouço a tua voz baixinho: )


Explicaram às autoridades o perigo que os ameaçava e a polícia isolou as ruas em torno do hotel Plaza a fim de evitar a entrada, no luxuoso recinto, Vignole com o seu ruminante.
tudo foi inútil, como supões Lõ, quando a festa estava no auge e os escritores examinavam as relações entre o mundo clássico dos gregos e o sentido moderno da história, o grande Vignole irrompeu na sala de conferências com a sua inseparável vaca, que para mais começou a mugir como se pretendesse a entrar no debate.
Trouxera-a até ao centro da cidade dentro de uma enorme furgoneta
(e pegas-me ao colo) fechada (e cobres-me já deitado ao meu lado) que iludiu a vigilância policial.

Mas tenho mais histórias do Vignole, Lõ (e ouço o teu riso baixinho por debaixo dos lençóis. E eu repito Pablo, Pablo, Pablo__________

loucos de Inverno)



segunda-feira, dezembro 08, 2003

Virgula

As palavras voam, dispersam-se. Tento arrumá-las, ordená-las. Mas falta-me a virgula. A que dá leveza, alegria, ritmo, sabor, ligação, respiração. Não a vou procurar, nunca a procurei.

Se não a encontrar, se ficar aquém, sei que aparecerá, o ponto final.