domingo, janeiro 11, 2004

Que Bom (II)
Palavras que me deixaram com um sorriso. Belo texto. Obrigado. Beijo.

Entro.

entro adormecendo meu ser para ser tu. vais sentir-me como se fosse uma parte do teu corpo perdida há algum tempo no esquecimento. nesse sítio nenhum tão presente. voltarei sem nunca partir nem abrir malas. será suficiente abrir-me para ti. talvez. talvez possas devagarinho ser capaz. talvez possas emprestar-me uma t-shirt tua se tiver frio. talvez possas deixar-me tomar banho e vestir essa t-shirt branca. deixo-te andar núa pela casa com a minha camisa. quero ver-te em mim ao pequeno almoço. antes de sair para ler o jornal aí pelas ruas do Outono. deixo-te só com aquela música para te espreguiçares para além de qualquer limite.

Wilson T, comentário a Devagarinho

Que Bom (I)
Palavras que me deixaram com um sorriso. Obrigado meu herói. Beijo.

Não te chamo pequenina... Como posso fazê-lo a alguém que toca as estrelas? Que aproveita a sua luz para encher o vazio negro dos espaços mais profundos deste mundo? Cuja alma tende para o infinito e cujo coração é o maior que alguma vez tive oportunidade de vislumbrar? Não te chamo pequenina... Não isso, não... Não, isso não é adjectivo para ti!

Ulamonge, comentário a Não me chames pequenina.

Escrever fora de casa (IV)
não digas depois de mãos

eu amo as tuas veias salientes.
o polegar fica entretido com o subir
e depois deixa-se cair.
como se a tua mão fosse um terreno,
com socalcos, montes,
nunca o deserto.
( não digas vazio, diz que são poros, diz que a pele precisa de respirar)


mãos de Wilson T
Uma mão encontra a outra afagando-se suavemente no delírio das ausências. Sentindo-se sentem o espaço entre si. Há momentos de vazio até no toque de duas mãos que há muito se conhecem. Talvez por isso. Talvez. Porque há entre elas tudo aquilo que lhes foge. Há muito que querem o tacto do mundo. Das coisas. Dos seres. Mas onde raio para essa sabedoria toda. Não sabem.

Escrever fora de casa (III)
Depois de Sem néons, no Aoeste

eu juro que me lembro
do meu vestido branco
descer estas escadas,
(aquela ali, onde estás estátua)
como soubesse voar
e tu trôpego,
animal escorraçado
calções roçados
ainda assim eras mais belo do que eu

Escrever fora de casa (II)
Xangô me mandou lhe dizer

Foi mais uma noite indecifrável
Com mistura de sangue venoso e arterial
Falava baixinho com os lábios colados
E os olhos turvos faziam bolas de saliva
Foi mais uma noite indecifrável na minha casa vazia

(A minha casa é o meu corpo)

Escrever fora de casa (I)
Depois do texto , de Miss Jones

a solidão já não sabe brincar sozinha.
o vazio vomita a angústia do nada,
as lágrimas humedecem o corpo seco
o corpo corroído, com esforço enrola-se em si

até quando?
vamos trocar as horas do relógio que este tempo está lento


Só.
E como é que se arranca a solidão de dentro de nós?
E como é que se ocupa o espaço do vazio que vai ficando?
E como é que se volta a acreditar?

E o que é que se faz com as lágrimas?
E com o corpo corroído?

Sepulta-se?
Miss Jones

sábado, janeiro 10, 2004

Vôo

© 2002 by Richard Fein

uma vezes voamos baixinho, tal planador sem motor, outras a pique, seduzidos pelo delírio. nascemos passáros, amantes da brisa refrescante. que o medo não trave o movimento mas aperfeiçoe a dança dos amantes. como um sereno, maduro, mas apaixonado artífice.

Entretanto, escuto o barulho das ondas.

O meu comentário ao texto escrito pela Eugenia

Alçamos vôo não apenas porque temos asas,
mas porque o vento sopra-nos os cabelos,
o temor não nos perpassa a alma,
e sabemos a duração da vida.

Eugênia Fortes

quinta-feira, janeiro 08, 2004


Darren H.

Agora que o vento parou
existe alguém,
teme
que eu me perca.
não sabe das minhas noites serenas
noites serenas nos meu lábios cerrados
cerrados sem esforço, sem rugas vincadas
estou na noite do sono do sonho
para alguém
estou na noite indecifrável

devagarinho

de manhã tive medo que me achasses feia
embora a roupa me prendesse os movimentos, fugi.
Mais tarde tive medo que descobrisses o meu fado
E o meu fado é estar só. Não desfaças a tua mala para viveres ao meu lado.
Entra devagarinho em mim, que eu não sei se sou capaz.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

No fio da navalha

Ficámos deitados, mergulhados num silêncio incómodo, à espera daquilo que se seguiria. Nesse momento não éramos amigos nem amantes. Fora da esfera do sexo, não tínhamos verdadeiro acesso um ao outro. Sentia o peso da infelicidade de Erich tal como um mergulhador sente o peso do oceano, mas não podia ajudá-lo. Era esse o preço a pagar por termos dormido juntos antes de nos conhecermos - partilhávamos uma intimidade desprovida de conhecimento ou afecto.

Uma casa no fim do mundo - Michael Cunnigham

terça-feira, janeiro 06, 2004

A sustentável leveza do ser

Rumámos a sul. Jantámos com amigos. Não estabeleci objectivos, não fiz pedidos, estive ao sol, li um bom livro, estive contigo – louise, senti-me bem. Será essa a fórmula, não criar expectativas, estar entre amigos e viver os pequenos nadas?

(Segunda-feira trabalhei de olhos fechados
na terça-feira acordei impaciente
na quarta-feira vi os meus braços revoltados
na quinta-feira lutei com a minha gente
na sexta-feira soube que ia continuar
no sábado fui à feira do lugar
mais uma corrida, mais uma viagem
fim-de-semana é para ganhar coragem)

Muito boa noite, senhoras e senhores
muito boa noite, meninos e meninas
muito boa noite, Manuéis e Joaquinas
enfim, boa noite, gente de todas as cores
e feitios e medidas
e perdoem-me as pessoas
que ficaram esquecidas
boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas
a vida é feita de pequenos nadas

Sérgio Godinho