domingo, fevereiro 29, 2004

....................

No fim do dia. deixo a roupa. tenho um chuveiro por cima da minha cabeça. um chuveiro de fios de prata. a chuva de prata gosta de ficar nos meus cabelos, vai descendo, atinge o meu peito, (sorrio porque meia parte de mim está brilhante de prata e da barriga para baixo estou só eu)________depois atinge a minha barriga e o jacto tem que ser forte para perseguir as minhas pernas e chegar aos pés. Esta chuva é fria e adormece a minhas dores, as guinadas de corpo cansado. é bom.

Ouço um Noc Noc de chaves no bolso.

Mudo o chuveiro por cima da minha cabeça. um chuveiro de fios de alma. esta chuva é quente e embrulha o meu corpo num todo (sorrio porque tu vês a luz azul do meu coração).

quentes e agasalhados vamos sair que eu gosto da cidade ao fim do dia.


depois de Gosto da cidade ao fim do dia II do Wilson

Gosto de esquecer que existo e ser feliz de existir nas subtis felicidades que pairam. Nos sorrisos das crianças. No teu olhar tranquilo e doce. Andar descalço à beira-mar procurando algum frio ao entardecer. Quando já não há quase nenhum sol. Quando ao apanhar conchas me esqueci das horas. Do mundo. Quando o único som é o esquecimento da superfície. Quando a melodia é o fundo do mar. Depois procurar o caminho para casa re-existindo-me. Sabendo encontrar-te num jantar calmo. No vinho tinto. Num cigarro que zangada me permites antes de nos entregarmos aos corpos. Ao reconforto das horas únicas.

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Escrever fora de casa (V)

Tem que haver mar.
Andar na avenida ao ritmo que me é imposto
Com a música de fundo que entra em mim como comando à distância
Por isso
tem que haver mar
para retornar a mim.
leio-te o meu livro. e quando me sentes cansada ,
passo a ler o teu sinal. abandono o livro na minha barriga. não sei quanto tempo te vais demorar no sentir da cor do meu corpo. às vezes
a tua boca molha o meu mamilo para eu sentir frio e te querer mais. ou me falas baixinho. ou agarras a minha coxa com força. ou fazes de meu cobertor. ou és um mar agitado ou um mar calmo.

na lareira. é outro ritmo. é o nosso ritmo.
_____
comentário ao comentário do Wilson:

gosto da cidade ao fim do dia. num cinzento-prateado que invade aquele por-de-sol. tem que haver mar. calmo ou agitado que não sou de ideias fixas. nem gostos. pode ser imaginário. tem que ter espuma marcando o compasso das ondas. a amplitude. a cidade é energia mesmo que adormecida. é uma avenida em linha recta. é correria. é ruído. gente. e depois é o contrário. da cidade fica-me o teu corpo à beira-mar. e nua um livro sobre a tua barriga. essa sala com lareira. chuvendo escritas inapagáveis. porém suavizadas num beijo. um beijo qualquer.

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Inquilinos e sapatos

Evito os sapatos de tacão alto.
não, porque não goste de entrar numa sala cheia de gente e ter uma visão arranha-céus.
os meus tornozelos são uma zona muito frágil desta cidade de carne que eu sou, onde se instalaram inquilinos, guerreiros escondidos.
inquilinos que gostam de ver o sol pelos meus olhos e como persianas suas, obrigam-me a uma sombra às vezes, prolongada…
e eu aproveito para dormir. amanhã, quando e se as persianas se abrirem, vai chover também dentro de mim, pergunto a vós, gente que pinta cidades, cidades de carne.