domingo, março 14, 2004

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Quase todas as noites
em sonhos
me visitas
nos abraçamos
nos beijamos
nos rimos juntas
Foi preciso
morreres
para te ter
fora de mim
até então
o teu corpo viveu
confundido
com o meu
Só te pari
quando um dia
te perdi.

Teresa Rita Lopes
prenda da Soledade.
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E do chão caules de água luminosa III.
Que barulho faz a chuva quando chove do chão. Um barulho quente de beijo. A vontade de encostar o rosto nessa almofada de vida sentindo as pegadas dentro dos corpos. Da terra molhada. Do núcleo incandescente. Será que Mendel conhecia os genes da alma. Pergunto-me depois de um beijo
palavras do Wilson
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Beija...
Eu beijarei... por dentro, para dentro...
palavras da isadora
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...e é sempre de assombro que se faz um beijo [com esta atmosfera interior] mesmo quando o transportamos cá dentro [em ameaça de tsunami] durante o dia, até o podermos finalmente carimbar no destinatário. E os beijos são como as cerejas...

palavras do Troblogdita

quarta-feira, março 10, 2004

E do chão caules de água luminnosa II

eu tratava por tu o Espanto. mas quando vi o Espanto Sem Medo, lembro-me que arregalei os olhos e pensei -erro genético - e no momento em que fazia os cálculos dos genes recessivos versus genes dominantes, absorta, recebi um beijo.
um beijo do Espanto Sem Medo.
num gesto que não sei explicar. arriscado. estendi as asas, porque saudades já tinha.

hoje, gosto da cidade ao fim do dia.
é quando recebo beijos. e estendo as asas num abraço.
a luz azul do meu coração é mais intensa mas torna-se despercebida no entardecer. prefiro.
Agora sabem-me bem as horas em que andei só.
Sorrio, porque pássaros branco, amigos, contaram-me que se calhar O Espanto Sem Medo aguarda um beijo meu.
Se ontem chover, chuva de prata, vou beijar o medo, vou beijar o Espanto Sem Medo.vou.

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Num inverno em que os campos andavam nus, um dia solarento despertou a magnólia adormecida. o tempo das suaves danças ao vento, aproximava-se sorridente. Mas fora breve o tempo, porventura, eterno o momento.

terça-feira, março 09, 2004

E do chão caules de água luminosa.

É um hábito meu sair do meu corpo. dizem que como o faço, certeza certeza, aprendi essa manobra logo em bebé. fazem-me o gesto, imitam a minha saída do corpo.
sorrio traquina, fascinada com o que sei fazer. incrédula.

Para evitar estas saídas, L: -sente os pés no chão, mexe os pés a sentir a base e imagina raízes, raízes profundas…

e eu já estou divertida fora de mim a sentir o quente destas luzes, a rasar o quente e neste momento já concentrei algumas luzes sem serem um foco e brincamos. Não sei se sou luz, mas sou bem-vinda.
Quando volto. penso que se calhar eu e estas luzes, não somos mais do que pessoas que têm o hábito de sair do corpo.

segunda-feira, março 08, 2004

O corpo enquanto arte (II)

Ele pousou o copo do sumo.
Tirou o maço do bolso da camisa e acendeu um cigarro, o cigarro que vinha fumando com o café desde os seus 12 anos. tal como explicara certa vez à mulher, e deixou que o fósforo ardesse um pouco antes de o sacudir num movimento vagaroso e ensimesmado pousou-o na borda do prato.
Era uma coisa de que ela gostava, o cheiro do tabaco. Fazia parte do conhecimento que tinha do corpo dele. Era a aura que emanava do homem, um vestígio de fumo e de um hábito ininterrupto, uma nova dimensão na noite, que ela lambia nos pêlos grisalhos e encaracolados do peito dele e saboreava na boca dele.

Don Delillo

A Mancha Humana de Philip Roth

A derradeira paixão pelos sentimentos. pelo indivíduo. Gostei do filme mas, como habitualmente, o livro consegue surpreender. prender.