domingo, abril 18, 2004

a nossa viagem - VI


Esperas por mim. o barco está quase a atracar. nesta curta viagem aproveitei para dormir, como nesse dormir, me despisse de uma mulher, para ter forças no andar. vamos pôr finalmente as nossas vidas no chão. espalhar os nossos medos. ver as tuas pinturas. aguardar as tuas perguntas. o convite para entrar.

a nossa viagem - V

(ao deitar este é o meu luar. o meu descanso. vou saltando de órbita em órbita. descanso?)



Lunda - Luanda, berço pendurado. avião hélice. contam que nem dei por nada.
kimkim e eu. um mundo faustoso e um mundo de cão. era assim. é assim.
kimkim porque tás de arma na mão ? o teu olhar sobre mim. aquele ar pesado que todos já sentimos de um olhar sobre nós. Ainda agora.
contam que nem dei por nada. kimkim sorri.. todos vêm ver. a jibóia que deslizava atrás de mim. kimkim deu tunda nela. Ainda agora. sinto o teu olhar. kimkim. eu não sou africana. a minha pele está mais branca do que nunca. o corpo trémulo. já não sei brincar com os teus dedos dos pés.
vem o homem do Burquina Faso, deixa-me um beijo na mão. um homem que se tornou belo com o tempo. nós estamos sem tempo. em órbita um dia chocamos.já não me rio quando por debaixo do tapete rosnavas e me enrolavas na brincadeira de sermos crianças.
só a música me tira as lágrimas.
eu não sou africana. O passaporte também mente.

a nossa viagem - IV



tu sentes o meu ondular. sentes como já não olho mais para trás. com este peso posso bem eu. hoje quando sentir o teu peso, toca com doçura. serei bicho assanhado e não precisas de chegar bêbado que bêbado ficarás comigo. Pareço-te inofensiva e assim quero que penses. A minha avó já o era, a minha mãe morreu cedo, não sei, eu feiticeira sou, um dia até me encheste o corpo de pétalas de buganvílias , cheio de tesão, de tal modo que adormeceste dentro de mim e acordaste ainda com tesão..pensavas que era da bebida e da erva na moonlight. e eu reti a minha gargalhada e nem nos olhos a viste.

a nossa viagem - III



mulher. mãe. o marido dela é o meu marido. criança pode ir à escola. marido diz que sim. marido diz que não.
não me deixam aproximar dos turistas em determinadas praias. discuto com o segurança e abro o meu lenço.
estão a ver senhoras, que bonito é. Só venho ao final da tarde quando o calor acalma e eu também.
depois de quatro crianças mais bela fiquei. Olho para a nova gazelle. admiro-a porque não aceita que o seu marido case com outra, e quer trabalhar. critico-a com gozo e no meio da minha comunidade conto histórias que nunca começam com …era uma vez… começam com um sorriso a mordiscar amendoins…




A nossa viagem - II
(ou a vã esperança da idade da inocência)


Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha seca

Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infânçia toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida


Ruy Belo

A nossa viagem - I
(ou só o mar pode esperar porque nunca envelhece)


Um nudez geométrica
Implanta nos espaços sucessivos
O vazio propício à aparição dos fantasmas

É aqui que as estátuas mostram
a necessidade sem discurso dos gestos

Exiladas da vida e da cidade
Exiladas do tempo
Elas convocam
O fragmento a mutilação os destroços

O peixe que navega sem perturbar o silênçio


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, abril 17, 2004

salto

eu e a thelma. a thelma e eu no Senegal. uns dias. os sentires do nosso salto, mais tarde. agora as vossas palavras. é bom. beijos

o João diz...

Aprenderemos a respirar pelas fissuras da parede, pergunto.
O corpo esqueceu-se de parar e agora está dos dois lados da cortina.

Duas peles separadas.
A curva das costas, os olhos, nariz, talvez tambem a boca, do outro lado as mãos no prolongamento dos dedos, os braços desunidos, o movimento determinado do desdobrar as pernas num impulso.

Quando tudo se torna tão insuportávelmente leve encosto-me à cortina e chamo-lhe parede.
Sombra, talvez, quando o sol é tão quente. Ou tão frio como o medo.
Antes de me fundir na pedra a luz que atravessa as fissuras risca-me a pele, corta-me o corpo. Aquece-me essa carícia de lâmina, implacável. Aquece-me esse momento em que me despeço das partes do corpo, talvez as minhas moléculas se transformem em anjos que atravessam as fissuras da parede, de um lado e outro.
Talvez o medo seja o desejo antes de nascer,

Ou talvez apenas duvidar da saudade.

Chamo-lhe então cortina, talvez exista saudade, talvez a memória saiba tecer o espaço entre os fios e nós.

Talvez afinal te abraçe e os anjos sejam enfim corpo.
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e o troblogdita....
. ...e muitas vezes só paramos quando esbarramos em nós próprios. Mas essa rota de auto-colisão traz também a bonança do reencontro com o corpo: esse portador e transportado, limite e desafio, referência e redundância...
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e a Isadora...
o corpo, cansado, aninhou-se na memória, enroscou-se na imagem de uma noite e adormeceu, exausto.
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e a Eugênia...
beijada a memória, resgata-se também o que não é memória? surge um hoje insuspeito, mas desejado? : )
beijos
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e a Filipa...
Como são bons e estranhos os espasmos de memória.
Pedaços inacabados