segunda-feira, junho 28, 2004



Ao acordar os meus cacos, bem educados que são, ganham pernas e vão repousar para a mesa de cabeceira.
(eis a razão porque a balança acusa uns quilos a menos de manhã)

e neste cenário volto-me para o reino da maquilhagem.

meto a mão no umbigo e o líquido amniótico amacia a pele do corpo depois do banho.
com destreza cumprimento o meu fígado
saco um sorriso embriagado
(não é um sorriso amarelo)
na bolsa do coração(directa à membrana do pericárdio)
retiro a luz para o meu olhar
(óptimo para prevenção de endocardites)
Afago os rins, pâncreas
no combate da amargura as minhas rugas alisam.
à vesícula carente, brinco à cabra cega e somo à luz do meu olhar, afectos.
sussurro à válvula mitral e um baton de sangue oxigenado recebem os meu lábios.

E se depois de tudo isto, as pernas se recusam a mexer
A voz rouca chama os cacos que descansam (bem educados que são):
Ainda não é hora de me abandonarem.

e tu homem que dormes ao meu lado
que finges não sentires as caminhadas matinais do meus cacos,
ao acordar, desenhas círculos nos meus seios, pó de arroz nas minhas bochechas:

Ainda não é hora de me abandonares.