domingo, setembro 26, 2004

Quantas vezes Mosca...Quantas vezes Abelha

Se se meterem numa garrafa meia dúzia de abelhas e outras tantas moscas, e se se deixar a garrafa deitada no sentido horizontal com a base voltada para a janela, chega-se à conclusão de que as abelhas persistem, até morrerem de exaustão ou de fome, na tentativa de descobrir uma saída através do vidro.
As moscas, em menos de 2 minutos saem todas através do gargalo do lado oposto...É o seu amor pela luz(das abelhas), é a sua inteligência, que as não deixa fazer uma experiência. Evidentemente que elas imaginam que a saída da prisão tem de ser po onde a luz brilha com maior intensidade, e agem de acordo com esse princípio, persistindo numa acção demasiado lógica...Entretanto, as moscas, sem grande capacidade cerebral...voam de um lado para outro, indo de encontro à boa sorte que muitas vezes aguarda os simples onde os mais sábios perecem, e acabam por descobrir a saída salvadora que lhes devolve a liberdade.
Karl Weik, Cit. por Peters & Waterman

quinta-feira, setembro 23, 2004

debug
Andam aí a acusar uma empresa de ser a causadora desta desgraça social.
A empresa chamou-me.
Pediu para depurar o código fonte. O erro estava aqui:

While ( estes tipos não lerem Carlos Fiolhais ) do
_____________________________;

óbvio, entrou em ciclo! como eu te entendo K.

Para remediar, aconselhei um simples se:

If (os tipos contratados no prós e contras aplaudirem muito a ministra)
não sai hoje
then
if ( se os aplusos forem assim assim)
then sai com erros às 3h da manhã
else
perguntem ao Sampaio, ele é que deixou estes tipos andarem por aqui;

terça-feira, setembro 21, 2004

Fico mais meiga para a tarde

de cuecas , com uma manta fresca por cima.
durmo à hora de almoço.
fico mais meiga para a tarde.

______
Não conheço este país.
A pele habituada ao sol, exposta ao vento frio descascou.
Já foi tempo em que deitado no sofá me ria contigo, árvore
a ver um filme patético sobre um homem invisível.
Hoje.

Cuspo para o chão. É a única maneira de trocar um olhar com alguém.
( depois de III do Wilson)

___uma estória para te adormecer---tropicália

Ao chegar aos trópicos sul-americanos ficamos sempre um pouco desconfiados, é fatal. Trazemos connosco um certo cartesianismo europeu, mesmo sem querer. E os trópicos nada querem ter e ver com isso, são assim como uma máquina inesperada e tremenda de fabricar alfinetes irritantes. Bichos a remexer, plantas a devorar o espaço, gente a tentar devorar seja o que for entre o tempo diferente ou em cidades súbitas e tentaculares onde há azeite, caviar sapatos, nêsperas e tudo.
Mas o que mais me arreliou, que sempre me causou espanto, foram os aparecimentos e desaparecimentos.
Então um dia, voltava a casa para ir almoçar. Abri a porta, olhei o correio e fui até à cozinha. Tratei de preparar a salchicha habitual e o gin-tonic sem tónica, tal como deve ser. Ainda mastigando, fui até à varanda tomar ar e admirar os arranha-céus em frente que me tapavam tudo.
Era o décimo andar. E zás, lá estava especado a olhar para mim. Um elefante, ali mesmo na varanda.
Espantei-me um pouco, claro. Mas afinal quem sou eu para me permitir tais espantos
?
Voltei para dentro e resolvi comer mais qualquer coisa.
Entretanto durante a tarde, enquanto trabalhava, o caso começou a agradar-me. Não havia dúvidas que era um companhia sólida, poderosa, conveniente e até mesmo respeitável na casa de um celibatário.

Quando voltei à noite para jantar o necessário, resolvi ter a certeza. e fui à varanda e o bicho lá estava, a abanar a tromba placidamente. Então tratei das coisas como se deve.
Fui logo lá dentro e trouxe duas cadeiras de palhinha, uma esteira caipira e um velho cortinado de bambu que estava debaixo da pia.
Soube-lhe bem, foi o que me pareceu.
Disse-lhe boa noite e fui ver televisão. Tomei as bebidas habituais, meti-me na cama e adormeci consolado.
No dia seguinte, mal foi manhãzinha, voltei encantado à varanda. E nada. Lá se fora o elefante que tantas esperanças me dera.
Então danei-me, assim não podia ser. Sai firme pela porta fora e fui protestar.
Enfiei-me no primeiro táxi e mandei seguir para o Departamento dos Perdidos e Encontrados.
Aí embiquei para o funcionário competente que lia o jornal atrás do guiché, atarefado.
- Desapareceu-me o elefante—barafustei, realmente ofendido e lesado.
- de que cor ?—perguntou-me, indiferente embora cortês.
--Ora essa! Cinzento, está bem de ver.
--Bem, vou tomar nota. Mas quem sabe, talvez o senhor não lhe tivesse dado alimento suficiente!
--duas cadeiras de palhinha, uma esteira caipira bem grossa e um cortinado de bambu, acha pouco ?
--Não se enfeze, não se enfeze que não vale a pena. Ele volta, é mais que certo.

Vendo bem, o funcionário estava na razão. Era assim mesmo.
Voltei para casa, preparei um gin e fiquei à espera. As coisas nos trópicos são assim. Aparecem e desaparecem.
Entretanto enquanto andava de aqui para ali, apareceram-me uma morena bem simpática, sete garrafas de gin e um pacote de bolacha araruta.
O Elefante ainda não.
É a vida.


1973- mário-henrique leiria

III do Wilson depois de jenipapo

Galgou angustiadamente o espaço que o ligava a casa.
Percorreu o silêncio das avenidas de Lisboa. A solidão. ...........
Amanhã voltarei. Procurou gritar alto dentro do seu corpo vincando o compromisso.
O compromisso de voltar. ...........Meu Deus.
Que faz um homem andar pelos jardins da cidade procurando um abraço. Onde perco eu o meu olhar. Pensando-se sentiu aquele vazio que quase faz rebentar as entranhas. Engoliu-o como se engolisse o mundo. E todas as distâncias. Era preciso voltar ao calor daquele abraço. Daquela árvore terna. Daquele intervalo. ...........Hei-de encontrar na tua casca ...........na tua robustez ...........na tua firme ligação com o mundo Talvez uma parte do mundo apenas ...........o essencial ...........a pele humana.